segunda-feira, 26 de novembro de 2012

TIC TAC ¹

"Durante o dia carrega a pedra para cima. Durante a noite a pedra rola para baixo. E amanhã novamente."
-Sísifo


O tempo é nosso melhor amigo, se pensar de uma forma meio prática. Ele é o único que nos visita e jamais nos abandona. Como se dentro de nós viessem aquelas rodas dentadas que fazem questão de continuar seu belo trabalho para sempre, nunca falhando conosco. Nelas podemos confiar. As coisas acontecem dentro de nós, perfeitas, como o trabalhar do relógio. O nosso eterno tic tac leal. Eterno enquanto dura.
Lealmente ele badalas nas horas certas e anunciam as mesmas horas sempre. É a única coisa correta e previsível de todos nós. Não dá para fugir. O bom e velho amigo leal o tempo. O relógio. O tic tac. O bom e velho funcionamento correto e frequente que não importa o que tentemos fazer para evitar, em algum momento vai bater 12 vezes. Que, apesar de ser a maior quantidade de badaladas, significa que voltamos ao zero.
Correto.
Previsível.
Inevitável.
Claustrofóbico resultado.
Mesma quantidade de tic tacs, mesmas badaladas e o 12 chegará. Os relógios são todos iguais. Mas, ao menos, Sísifo ganhava músculos, nem tudo está perdido, não é?

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

De pai para filha


12/02/1988

"Meus lindos olhos azuis,
Quanta felicidade nos trouxe!
Meus lindos olhos azuis,
Nosso Plural de felicidade.
Chegou, vida mudou!
Coisa linda que ficou.
Essa droga de poema é dedicada a você
que chegou, e agora é tão cultuada.
Sobre ti escreveria um livro.
Reles livro; não te caberia.
Pois pequena, ocupa grande espaço.
Não te descrevo.
o 'tudo' não te representa.
Teu choro é mais lindo que o tocar do violino.
O poeta disse a outra:
"Você é linda demais!"
Talvez o poeta não te conheça.
Podes existir para poucos
E poucos podem te falar
Com amor:
Amanda, você é linda!"

e até hoje nunca ninguém me disse nada mais lindo...

domingo, 12 de agosto de 2012

O Morro dos Ventos Uivantes

"Oh it gets dark, it gets lonely
On the other side from you
I pine a lot, I find the lot
Falls through without you
I'm coming back love, cruel Heathcliff
My one dream, my only master"


-Wuthering Heights -  Kate Bush

É uma coisa engraçada essa de se sentir sozinho. Solitário é aquele que está em casa um sábado à noite sem ter o que fazer, mas com acesso à internet e ao 9gag ou solitário é aquele que está no meio da multidão sem falar com ninguém? Eu me encontro numa situação peculiar.
Estou sozinha nos dois casos.
Maravilhoso você ir para a terapia e descobrir mais sobre si, mas não é tão legal assim quando você descobre que tudo o que você sabe de si, só você mesmo irá saber. Possivelmente, todas aquelas descobertas profundíssimas de personalidade, habilidade capacidade começarão e terminarão em si. Você é uma Disneylândia imensa que só tem a si mesmo como visitante. E o mais irônico ainda é que, por descobrir isso de si, você chega à brilhante conclusão que as outras pessoas também são jardins secretos magníficos, mas você tem tanto de si para dar e aprender que não vai visitar ninguém; e ninguém vai te visitar também.
Aí você cai nesse vótex euzístico vicioso em que você tem muito a oferecer e ninguém para receber e é tão ocupado consigo que não vê o que os outros têm a oferecer também. Afinal, você é uma Disneylândia, por que caralhos haveria você de sair daí?
Isso afeta a capacidade do ser humano de viver junto com outro. Dizem que nenhum homem é uma ilha, mas eu cheguei à conclusão que é sim, a frase só esta incompleta: nenhum homem é uma ilha vazia e sem uma vasta equipe de guias de turismo prontos a te guiarem por todo esse espaço maravilhoso do EU. A nossa necessidade de companhia e toque só é saciada quando visitam nossa fabulosa ilha dos desejos, amores, segredos e maravilhas. Se nós formos apenas visitantes todas as vezes, nossas ilhas fabulosas iriam à falência e nos tornamos um bando de Starbucks, vendendo a mesma coisa que todas as franquias, sem nada de especial. Mas também se não visitarmos, estaremos sendo hipócritas por não fazer aquilo que criticamos os outros por não fazerem.
E agora?
Conforme vai passando o tempo, perdemos interesse nas montanhas-russas dos outros e nos concentramos mais nas nossas próprias aulas de filosofia e história. As maravilhas das outras pessoas se tornam ínfimas perto das nossas. Paramos de nos importar com as outras pessoas simplesmente porque elas param de se importar conosco.
 E ficamos sozinhos.
Sozinhos no País das Maravilhas.
Que ninguém nunca vai ver.
E o interesse acaba.
Algumas pessoas ainda passam e dizem que seu parque é o máximo, mas não caia na conversa fiada delas. Elas também vão perder o interesse em você como você vai perder o interesse neles. E vai sempre só sobrar você.
Na Disneylândia.
Em Nárnia.
No País das Maravilhas.
Em Cinquenta Tons de Cinza.
Num filme pornô.
Em si.
Porque não pense que esse post não é sobre sexo. Ele é. Um dia, Numa cama com dois, você estará sozinha. E ele também estará. Não adianta trocar de "ele" ou trocar de "ela". Isso vai acontecer sempre.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Independência X Paciência

"Os grilhões que nos forjava
Da perfídia astuto ardil...
Houve mão mais poderosa:
Zombou deles o Brasil."

-Hino da Independência

Nosso limite é testado todos os dias por todas as pessoas, mas nenhum limite é posto mais à prova que a nossa barreira entre a calma e a ira.
Há quem diga que a ira é algo incontrolável. Eu acredito nisso. Há ainda quem diga que a nossa calma só é perdida porque a gente deixa. Eu também acredito nisso.
Apesar de soar antagônico, posso garantir que não é. É absolutamente plausível que as duas coisas ocorram simultaneamente. O que vai definir qual das duas ocorre para uma síncope nervosa de quebrar a casa toda é o grau de independência que você adquiriu sobre os envolvidos.
É uma das maiores realidades do mundo que a calma é um bem transferível e gerenciável, mas também é uma moeda de troca. Você troca a sua calma por dinheiro, sexo e bens materiais. Você opta na vida o que vale a pena investir o seu santo saco.
Seria perfeito isso, não seria? Optar pelo que vale à pena se estressar ou não...
Apesar de ser uma moeda de troca, a paciência também é um fundo de garantia. A quantidade de paciência que você tem é inversamente proporcional ao grau de independência que você precisa atingir.
Ou você vai me dizer que seus pais nunca te tiraram do sério? Ou seu chefe?
Tomar posse das próprias rédeas, lavar a própria louça, resolver os próprios problemas e assumir responsabilidade pela própria geladeira é absolutamente desagradável e, se você pensar nisso por um segundo de uma maneira bem racional, ninguém no mundo faria. Na boa, nem eu! Mas tudo tem um preço e o preço da roupa passada e janta pronta é paciência. Os anos se passam e a paciência que a gente tem para com nossos pais, aceitar regras que a gente acha idiota, aceitar intromissões, pentelhações e invasões, simplesmente acaba. Você se estressa com seu pai, é grosso com sua mãe, se torna impossível viver nessas condições, então você acha um emprego (mesmo que odeie), junta um dinheiro e vai morar no seu próprio espaço. Com ou sem baratas. Trabalhando todo torto. Morrendo de fome. Foda-se! Agora você é independente.
Exemplo prático. Ilustrativo.
Mas a paciência se baseia em todos os aspectos da vida. Principalmente a de espaço pessoal.
O ser humano tem essa necessidade engraçada de depender dos outros para tudo. Talvez não tudo ao mesmo tempo, mas para todo tipo de coisa. A que eu acho mais engraçada são as relações interpessoais. Quando chega nesse ponto, a paciência necessita de uma moeda de câmbio: a exposição. Você permite acesso às pessoas que você depende de algo. Seja carinho, companheirismo ou qualquer outro tipo de interação. Você deve permitir acesso a você. Quanto mais acesso você permite, mais você depende da pessoa. E ela também te oferece esse acesso. Tendo acesso a esta pessoa, você a conhece. A conhecendo você pode se valer da dependência que ela tem de você. E isso é chato. É de perder a paciência. O grau de dependência que você tem de uma pessoa é diretamente proporcional ao quanto você se expõe a ela. O que a pessoa vai fazer com essa exposição? Usufruto. Todos necessitamos de uma atenção de vez em quando e esse é o preço. Nós realmente só nos irritamos com aqueles que nós permitimos que nos irrite. É, sim, uma questão de escolha. Escolhemos o que nos é mais valioso: a paciência ou a relação interpessoal que seja que temos com a pessoa. Um homem ou mulher absolutamente independente do mundo não se irrita com ninguém, pois não deve nada a ninguém, não tem pedaços de si espalhados por aí. nos irritamos porque há pessoas que se irritam conosco, porque fazemos parte de uma rede de relações. E dependemos dela, queremos depender dela.
Pode ser um saco de admitir, mas ninguém é uma ilha. Mas nem tudo está perdido: a decisão do quanto gastar de paciência e do quanto comprar independência é, sempre foi e sempre será sua. O mundo é apenas uma enorme casa de câmbio e as pessoas são apenas compradoras.