Da perfídia astuto ardil...
Houve mão mais poderosa:
Zombou deles o Brasil."
-Hino da Independência
Nosso limite é testado todos os dias por todas as pessoas, mas nenhum limite é posto mais à prova que a nossa barreira entre a calma e a ira.
Há quem diga que a ira é algo incontrolável. Eu acredito nisso. Há ainda quem diga que a nossa calma só é perdida porque a gente deixa. Eu também acredito nisso.
Apesar de soar antagônico, posso garantir que não é. É absolutamente plausível que as duas coisas ocorram simultaneamente. O que vai definir qual das duas ocorre para uma síncope nervosa de quebrar a casa toda é o grau de independência que você adquiriu sobre os envolvidos.
É uma das maiores realidades do mundo que a calma é um bem transferível e gerenciável, mas também é uma moeda de troca. Você troca a sua calma por dinheiro, sexo e bens materiais. Você opta na vida o que vale a pena investir o seu santo saco.
Seria perfeito isso, não seria? Optar pelo que vale à pena se estressar ou não...
Apesar de ser uma moeda de troca, a paciência também é um fundo de garantia. A quantidade de paciência que você tem é inversamente proporcional ao grau de independência que você precisa atingir.
Ou você vai me dizer que seus pais nunca te tiraram do sério? Ou seu chefe?
Tomar posse das próprias rédeas, lavar a própria louça, resolver os próprios problemas e assumir responsabilidade pela própria geladeira é absolutamente desagradável e, se você pensar nisso por um segundo de uma maneira bem racional, ninguém no mundo faria. Na boa, nem eu! Mas tudo tem um preço e o preço da roupa passada e janta pronta é paciência. Os anos se passam e a paciência que a gente tem para com nossos pais, aceitar regras que a gente acha idiota, aceitar intromissões, pentelhações e invasões, simplesmente acaba. Você se estressa com seu pai, é grosso com sua mãe, se torna impossível viver nessas condições, então você acha um emprego (mesmo que odeie), junta um dinheiro e vai morar no seu próprio espaço. Com ou sem baratas. Trabalhando todo torto. Morrendo de fome. Foda-se! Agora você é independente.
Exemplo prático. Ilustrativo.
Mas a paciência se baseia em todos os aspectos da vida. Principalmente a de espaço pessoal.
O ser humano tem essa necessidade engraçada de depender dos outros para tudo. Talvez não tudo ao mesmo tempo, mas para todo tipo de coisa. A que eu acho mais engraçada são as relações interpessoais. Quando chega nesse ponto, a paciência necessita de uma moeda de câmbio: a exposição. Você permite acesso às pessoas que você depende de algo. Seja carinho, companheirismo ou qualquer outro tipo de interação. Você deve permitir acesso a você. Quanto mais acesso você permite, mais você depende da pessoa. E ela também te oferece esse acesso. Tendo acesso a esta pessoa, você a conhece. A conhecendo você pode se valer da dependência que ela tem de você. E isso é chato. É de perder a paciência. O grau de dependência que você tem de uma pessoa é diretamente proporcional ao quanto você se expõe a ela. O que a pessoa vai fazer com essa exposição? Usufruto. Todos necessitamos de uma atenção de vez em quando e esse é o preço. Nós realmente só nos irritamos com aqueles que nós permitimos que nos irrite. É, sim, uma questão de escolha. Escolhemos o que nos é mais valioso: a paciência ou a relação interpessoal que seja que temos com a pessoa. Um homem ou mulher absolutamente independente do mundo não se irrita com ninguém, pois não deve nada a ninguém, não tem pedaços de si espalhados por aí. nos irritamos porque há pessoas que se irritam conosco, porque fazemos parte de uma rede de relações. E dependemos dela, queremos depender dela.
Pode ser um saco de admitir, mas ninguém é uma ilha. Mas nem tudo está perdido: a decisão do quanto gastar de paciência e do quanto comprar independência é, sempre foi e sempre será sua. O mundo é apenas uma enorme casa de câmbio e as pessoas são apenas compradoras.